terça-feira, 5 de maio de 2009

< ENTREVISTA COM MAURÌLIO >




Figura ímpar do primeiro escalão da produção rock cearense e nordestina, Maurílio ``Switch Stance´´ aparece no apasseio num bate-papo onde falamos sobre os nove anos de Empire Records, produção local, a nova fase internacional da cidade, sobre o festival PontoCe e um pouco de algumas histórias das quais foi protagonista ou esteve envolvido.

Para os amantes do rock and roll local, eis a entrevista com um dos pilares da produção alternativa fortalezense... PAPOCa!

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Apasseio > Nove anos de Empire Records... Muito evento e histórias nas costas Maurílio?

Maurílio > Nossa cara a gente já fez muito evento mesmo, já perdi foi as contas de quantos foram... Mas todo evento teve sua importância. Fizemos uma época dos new generations, com bandas locais, novas, com menos de um ano de existência... Depois produzimos várias turnês de bandas nacionais pelo nordeste, como Dead Fish por várias vezes, Sugar Kane, Strike, Matanza, a própria Switch Stance... Então com todas essas bandas que fomos nos envolvendo, acabávamos dando oportunidade para bandas locais acompanharem as turnês abrindo os shows fora de Fortaleza...

Tô te falando isso pra você ver como todos os shows são importantes, eu como já tive banda, tenho meu projeto e sei que o valor também está em outras coisas. Não é só fazer o show, ver sua bilheteria, a banda tocou foi embora e ai foda-se... Agora nessa fase de grandes shows, com nomes internacionais vindo pra cá, a proposta continua a mesma.

Agente começou fazendo uns shows menores como o The Nation blue, da Austrália que tocou no PontoCE, depois o Under School Element, da Suiça e daí ano passado vieram os maiores como Helloween e Gamma Ray, Nazareth, Midnight, Nightwish, Groundation, Bad Religion, produzimos o MotorHead... Todos esses show foram bandas de Fortaleza que abriram, eu sempre bato nessa tecla.

Apasseio > Pra quem tá de fora é facil perceber a evolução da Empire... Primeiro os shows com bandas locais, depois as nacionais e agora atrações internacionais... Mas e com você, como foi essa percepção? Porque realizar produção já é difícil e em Fortaleza que não é um grande centro deve ser mais ainda...

Maurílio> Eu acho que foi gradual, pois eu fiz uma faculdade que não tem em canto nenhum do mundo... Eu aprendi fazendo, levando na cara mesmo, fazendo, errando, acertando... Enfim, essa evolução... Eu acredito que veio pelo amor que eu tenho no meu trabalho, muito amor mesmo. Garanto que se fosse outra pessoa que visasse grandes lucros e almejasse outro objetivo, já tinha desistido desse setor...

Como eu sou rockeiro, tenho banda, gosto de boa música, o envolvimento é maior. Eu quero que esteja tudo legal, uma estrutura legal, que o público saia do evento satisfeito e veja um show realmente bancana. Isso faz diferença na hora da execução, quem não se preocupa com isso coloca qualquer palco pras bandas, qualquer som, não se preocupa com ambiente...

Apasseio> Nos primórdios da Empire, quando o endereço ficava na Tiburcio Cavalcante... O que rolava era mais uma loja, um Studio, não era produtora como é hoje. A própria Empire teve várias fases!?

Maurílio > Na realidade se for juntar tudo, é muito engraçado... Eu era vendedor da Empire Records, ela funcionava como uma loja de Cd, discos e eu era o vendedor. O dono, meu primeiro sócio era o G. Lá eu fazia pedidos de CDs e tal, um belo dia ele me chamou e disse que ia fechar a loja e estava querendo montar um estúdio. Me convidou pra ser sócio e eu levei a idéia pra ele da gente fazer um selo, uma gravadora, a Empire Records.

O primeiro lançamento como selo foi o cd da minha antiga banda, a Swich Stence. Daí eu comecei a me movimentar pra tocar, eu achava que aqui em Fortaleza era escasso. Como não gosto de esperar por ninguém... isso é uma coisa que eu não faço é esperar pelos outros, vou lá e faço mesmo... Então comecei a agenciar shows... Ir atrás de trazer bandas de fora pra tocar e minha banda tocar junto, abrindo os shows... Isso foi aumentando, as turnês pelo nordeste começaram a rolar, o Switch Stance crescendo, as vendas do cd indo bem e daí a Empire vai se transformando... nessao G ficou um pouco desinteressado no trabalho com discos e tudo, por volta de 2002 e saiu da sociedade. Fiquei sozinho...

Apasseio> Bem rápido essa trajetória, de vendedor pra dono...

Maurílio > É foi mais ou menos isso, a coisa se deu dessa forma... Eu sempre querendo tocar, fazendo amizades, aumentando as propostas de shows e hoje eu sou mais produtor do que cantor.

Apasseio > Você sabe que andando pela cena de Fortaleza a gente escuta muita história. Uma das que fiquei sabendo foi o lance do encontro do Swich Stence com o Tom Capone (Produtor Musical mais badalado do mainstream nacional nos anos 90 e 2000)... Algo relacionado a convite de produção e tudo, mas infelizmente interrompido pelo falecimento do mesmo... Ouvi gente falando até em depressão brother... Isso existiu mesmo?

Maurílio > Rolou sim... A depressão não sei se rolou, acho que não seria essa palavra... Mas foi o seguinte, nos estávamos num momento muito bom, acredito que o auge da banda foi em 2004... Havíamos saído de um disco bom, Aquela Estrada (segundo Cd), conseguimos tocar nos maiores festivais do Brasil, Porão do Rock, AbrilProRock, Ceara Music, Piauí Pop, turnês, tocamos com Offspring, enfim o ano foi demais pra banda.

Paralelo a isso tudo que rolava nos queríamos mandar nosso trabalho pra algumas agencias, já sabíamos como funcionava e o nome do Tom Capone era muito forte pra gente, a galera se ligava que ele tinha fama de buscar a real essência da banda, era rockeiro e gostava de som. Não era um daqueles empresários ou gravadoras que transformam a banda no que desejam. Por essas virtudes nos sempre o buscávamos e pensávamos no nome dele, a coincidência rolou no Porão do Rock em Brasília.

Cara imagina ai 70 mil pessoas, dois palcos idênticos e nos ali esperando pra tocar depois do Peligro, o gringo que tocava no Dead Kennedys. A expectativa do público estava em cima deles, mas o show dos caras foi horrível, os caras todos morfinados, loucos, o show foi horrível e logo depois era a gente.

Brother foi coisa de louco, tocamos 25 minutos de set, pra você ver o negócio como foi nesse dia vendemos mais 80 discos, a R$15,00 e num festival isso é muito. Quando a gente desceu do placo estavam lá o Miranda (produtor e jurado do programa Ídolos) e o Tom Capone... Nesse dia também rolou um contrato de distribuição da Unimusic para 3.000 discos (distribuidora da Universal Music)... Nisso a galera no camarim trocando idéia após o show, maior felicidade tudo massa, quando derrepente entra o Airton pela porta e com toda a pompa apresenta o Tom Capone e diz que ele estava querendo um cd da Switch Stance.

Terminamos de dar entrevista, troquei de roupa e fui lá falar com ele. Nessa conversa ele elogiou muito a banda, falou do nosso entrosamento e disse que iria escutar o disco. Mas ai cara, ele disse pra esquecermos o disco e perguntou se tínhamos musicas novas e imagens do show. Prontamente dissemos que mandaríamos tudo... Brother a gente voltou pra Fortaleza 42 horas de ônibus sorrindo e cantando.

Chegando aqui procurei e conversei com o Moises da Mv Studio... Ele parou uma semana tudo dele e gravamos no preço. Com duas semanas e o material finalizado eu peguei o cartão e liguei pro Tom Capone. Numa segunda feira falei com a secretária dele e tudo, ela me disse que o cara estava recebendo o Grammy em Nova York... Na quarta feira, no caminho pro ensaio eu recebo a notícia da morte dele...

Eu lembro de uma frase que ele disse pra mim em Brasilia – Não importa, se a Warner não quiser a gente vai fazer alguma coisa pelo meu selo, não importa o que aconteça, continue fazendo isso – Porra a gente não conseguiu nem ensaiar, ficamos na merda, imagina ai como a gente ficou... Foram duas semanas intensas de preparação do material, a expectativa foi muito grande pelo fato de ser o Tom Capone, foi um baque muito grande, fiquei até desacreditado...

Apasseio> Acho que é desse momento que a galera associa a depressão...

Maurílio > Não era depressão não, eu não sofro disso... Mas fiquei muito decepcionado, frustrado, eu criei muita expectativa em torno disso e o problema foi esse, mas o legal que logo depois rolou de abrir os shows do Offspring em São Paulo e no Rio, o que acabou dando um novo animo...

Apasseio> E hoje, qual é a da Switch Stance?

Maurílio > Essa pergunta... Muitos da banda seguiram seu caminho, a gente se fudeu muito, investimos muito na banda... Muita gente deve a gente, levamos calote, íamos pros shows e não nos pagavam, chegava nos cantos e era complicado por morarmos aqui, viajávamos por mais de 40 dias fora tocando e alguns dos meninos foram tomando seus rumos... Depois desse episódio do Tom Capone a banda sentiu... o Welinton hoje é médico, o Aírton tem uma confecção, Tarcisinho é dentista e o Rato foi fazer um curso de bateria em Los Angeles... A banda acabou, mas eu tenho intenção de voltar com novidades, pode esperar.

Apasseio > Hoje Fortaleza recebe com mais freqüência shows internacionais, ao meu ver essa mudança tem um ou até mais dedos dessa produção Rock na Roll. Nesse segmento nossa cidade já pode ser vista como rota e calendário a nível de Brasil?

Maurílio > Acho que Fortaleza entrou mesmo, hoje estamos visados e sabemos que é possível. Claro que ainda temos muitas dificuldades, não é todo show internacional que rola fazer aqui, que vira, que dá certo... Acho até que o público deviria valorizar mais e comparecer em peso aos shows.

Falando dos shows internacionais que aconteceram aqui, como Alanis Morissete por exemplo, eu acho que a Empire tem um pouco de culpa disso, de ter balançado mesmo as produtoras... E ai galera vamos fazer? Temos demanda, olha aí... Enfim é por aí, eu acredito que a cidade merece esses eventos...

Apasseio > E sobre a expectativa da festa de aniversario de 9 anos da Empire dia 12 de Junho no Hey Ho... Dead Fish aparecendo novamente por aqui... O que se tá esperando desse evento?

Maurílio > A cara... Que a galera se divirta (risos)... A cara, não sei... Vai rolar uma exposição de fotos da Rafa Eleotério com fotos de eventos nossos das antigas, vamos poder recordar várias coisas, o fato de ser com o Dead Fish remete aos primeiros anos da Empire, eu sou amigo dos caras, sou fã da banda e fora isso as bandas locais... Vai ser muito massa...

Apasseio > Uma realização da Empire que recebe muita crítica da classe artística musical cearense é o PontoCe, o que você pode adiantar sobre esse ano, vai ter? Continua na mesma linha?...

Maurílio > Vai, vai sim, ta confirmado o PontoCe pra 6 e 7 de Novembro, o local está sendo definido, talvez voltemos para a Praça Verde... E esse ano vai ser bem diferente... Sobre críticas, as pessoas reclamam do nosso critério de avaliação e seleção das bandas, o que na verdade eu acho o mais coerente possível.

Nos não repetimos bandas, as bandas locais que escolhemos são as que estão produzindo, ativas, lançando disco... Eu não vou colocar no festival uma banda que está ai a 10 anos e lançou só uma demo... Valorizamos quem tá no gás, lançando clipe, gravando disco, sendo falado, tocando...

Nesse ano estamos querendo deixar o festival mais eclético possível, nos anos anteriores o rock dominava mais ou menos 70% da programação, já esse ano queremos chegar a 50% e trazer bandas de diferentes estilos... Pretendemos colocar um teatro envolvido, musica eletrônica e reunir ações culturais dentro do festival, como uma célula cultural... Estamos em contato com a galera do Nóia pra um lance de audiovisual... É por ai...

Apasseio > Pra finalizar tem alguma carta na manga, uma novidade vinda da Empire com relação a nomes para adiantar aos leitores do blog? Novidades...

Maurílio > È isso ai, pode esperar da Empire muita surpresa, estou sempre em movimento e tudo pode acontecer...



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Um comentário:

Lucas Moratelli disse...

Muito boa a entrevista. Parece ter sido feita com bastante profissionalismo.

Parabéns.

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Obrigado pelo comentário no Discorro.
Só que eu não entendi o "papoca..." =)

Abraço.

Lucas M.
(http://discorro.blogspot.com/)