quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Entrevista com Fabrício O Fuji – Produtor Móveis Coloniais de Acaju



Eles estão sendo apontados como a vanguarda da música independente brasileira, a razão, representam todo um novo estilo do se fazer música ao produzir música e inovam no quesito administração da música... Sacou? Segunda chance...

O Móveis Coloniais de Acaju, banda que nasce com influencia do Ska jamaicano, hoje é uma empresa com 10 sócios, CNPJ, impostos, amizade com leão e o fisco, tudo em dia. Possuem seu próprio festival que acontece duas vezes ao ano (Móveis Convida), foram pra Europa apoiados por editais federais de apoio a cultura, lançam cd na internet para downloads gratuitos e utilizam a rede mundial de computadores como principal aliada de divulgação.

Eles estiveram na Orbita no último dia 31/07 e na oportunidade pude trocar idéia com o homem que encabeça os bastidores da banda, Fabrício Ofuji, o produtor oriental da moçada do cerrado.

Acreditem, se por trás de um homem ainda existe uma grande mulher, nas costas da banda sempre existirá um produtor que vai de hold a psicólogo em segundos.

Muito atencioso e principalmente atento a toda a seqüência de montagem do palco super colorido, enfeitado por baldes repletos de faixas sortidas a serem pendurados, trocamos uma idéia no intervalo da passagem de som e falamos sobre essa surpresa que com o passar dos dias vira realidade do cenário artístico nacional.


Apasseio - O Fuji, tú entrou no Móveis em 2003, não foi isso?

O FUJI – Foi no fim de 2003, início de 2004... Quer dizer, as conversas começaram em 2003, mas foi entrando mesmo no começo de 2004.

Apasseio
- E você tava com quantos anos nessa época?

- O FUJI - Hummm... Eu tava com 21 na época..

Apasseio - Tô te perguntando isso pra saber como você virou produtor do Móveis,.. Tipo, o que te credenciou pra isso, sua relação com a banda... O teu percurso mesmo saca?!

- O FUJI – É curioso, sim, se você pegar hoje, meio que eu tenho 11 anos de música em Brasília. Lá eu tive, no fim da década de 90, uma banda com o Beto, que hoje é flautista do Móveis... e é aquela coisa de banda, de que quando você tem banda acaba sendo tudo... produtor, você divulga, corre atrás de show... Então desde aquela época já tinha essa movimentação.

Na banda éramos quatro, eu e o Mauro, o baterista que hoje é publicitário e não toca mais, nos éramos os que corríamos atrás dos de shows. Tinha aquela vontade de tocar, andava com a fita demo no bolso, mostrava pra todo mundo... Enchia o saco pra poder tocar e um pouco dessa experiência de produção foi acumulando dessa época.

Lembro que fizemos um show com produção própria no Teatro Garagem que foi um palco muito importante lá em Brasília. Foi onde o Raimundos começou a tocar, um lugar muito importante pra cena, onde todo moleque queria tocar. Sei que a banda acabou em 2000, depois disso eu era estudante de jornalismo e fazia cobertura de alguns eventos, cobria o Porão do Rock, fiz uma cobertura on line pra eles e surgiu a oportunidade de fazer a assessoria de imprensa prum festival que teve Alannis Morisette, Live, Simple Red...

Eu já tinha uma relação muito boa com o pessoal do Móveis, desde a banda ao colégio... Pra falar a verdade eu era amigo deles, mas nem era um grande fã do primeiro trabalho deles, que era um EP mais voltado pro Ska e tal... Mas respeitava muito eles, a vontade de tocar deles, a vontade de querer mostrar o trabalho...

E a banda tava participando da seletiva desse festival e foi a única de Brasília a tocar no palco principal. A gente viu que a banda se articulou em uma/duas semanas e montou uma estrutura de equipe pra tá participando dum festival daquele porte, de uma estrutura de luz e som que nunca tivemos igual. Comparado a Rock and Rio, aqueles palcos com passarela pelo público, equipe de SãoPaulo.

Naquele momento a banda viu que se fosse pra seguir com a música teria que ter um lado profissional maior. No fim do festival me perguntaram se eu não pilhava de estar trabalhando com eles e divulgando a banda, eu achei bacana e falei que deveríamos amadurecer a idéia, isso já em janeiro de 2004. O Beto me ligou na seqüência, acertamos esse lance de grana e foi por ai, fui me inserindo através da comunicação...



Apasseio - Nossa você teve ter tido muito trabalho, pegou a banda entrando no profissionalismo da coisa. O que você poderia falar sobre esse período para bandas iniciantes da cena de Fortaleza... e até das cenas do Brasil, em geral todo mundo acaba vivendo as mesmas situações?

- O FUJI – Tem uma coisa que é bem básica, acho que foi até o Noblat (www.blogdonoblat.com.br) que falou isso comigo... ``Cara, tem que teimar, insistir e bater o pé!´´... Você vai tomar muito não, vai ter gente que irá te ignorar e o negócio é tentar. Uma coisa que acontece no Móveis é que sempre acreditamos no trabalho e tínhamos perseverança, sabíamos que não seria aquela coisa de- Ahá a gente vai estourar –

Acompanhamos todas essas mudanças que ocorrem com a indústria fonográfica, a ascensão da divulgação pela internet. Decidimos que teríamos de construir a carreira tijolo por tijolo e até hoje estamos crescendo, não somos uma banda com a carreira consolidada. Tâmo longe disso, tâmo aprendendo bastante coisa, gostamos muito de, em cada show, trocar idéia com os produtores, com as bandas, ter esse tipo de experiência.

Tanto que um dos motivos de termos criado o Móveis Convida (Festival da Banda que ocorre duas vezes ao ano), era termos esse contato com produtores, bandas e fomentar a música. A questão principal é mesmo a insistência, que a partir daí você vai atrás, mete a cara sem medo de tomar o não, faz agenda... Uma hora o cara que te disse não é o mesmo que vai te dizer um sim, lá na frente, ele vai lembrar de você.

Apasseio - Como é a relação do Móveis com esse lance de editais? Aqui em Fortaleza tem banda e artista que vive de edital... Confesso que me preocupa essa super dependência...

- O FUJI – É uma questão muito importante, até porque não temos políticas culturais fortes instituídas no país. Então, todas essas leis de incentivo a gente tem que agarrar mesmo, tanto que até os grandes nomes usam e vem sendo criticados. Mas é a carência mesmo, do fato de não termos...

Na França, os artistas conseguiram se mobilizar, conseguiram direitos trabalhistas, seguro desemprego... A gente tem que contar com esse apoio, pode ser que você não ganhe sempre, ganhe uma vez ou outra, mas não podemos desprezar um incentivo importante. O primeiro disco do Móveis nós contamos com o apoio do Governo Federal, tem um fundo de apoio a arte e cultura, uma parcela do disco foi financiada por esse fundo, o que foi muito importante.

Apasseio – Sobre esse lance de, ‘’banda empresa’’, como é essa historia do Móveis Coloniais de Acaju ser uma empresa?

- O FUJI – Hoje a banda é de fato formalizada como empresa, somos 10 sócios no total e essa foi a forma que a gente encontrou de estar dentro do mercado formal de shows. Uma vez que você precisa emitir uma nota fiscal de algum evento, ai você não precisa de um terceiro e de empresário pra cuidar desse tramite. A gente viu que até conseguir convencer outra pessoa que o nosso material é interessante, fica tudo mais fácil. Esse modelo nós ainda estamos construindo, optamos por um caminho que pode ser uma via, é uma modelo similar do que acontece em Cuiabá, o pessoal do Espaço Público.

Eles são um coletivo e envolvem mais que a gente. São produtora, banda, estúdio, tanto o Pablo Capilé, quanto o pessoal do Macaco Bong, eles mobilizam muito. O que eles criaram de economia solidária em Cuiabá é um modelo muito forte e quem sabe é pra ser seguido...

Apasseio - Será que essa independência administrativa também já uma tendência?

- O FUJI – Não sei se chega a ser tendência, mas é um caminho. Não sabemos se é o caminho, mas estamos seguindo por ele, como temos a noção de todo o processo é muito mais interessante você conhecer pra poder fomentar a cultura. È muito mais fácil a gente estar ciente de quanto que precisa pra fazer um show, quanto de esforço físico, financeiro, do que você pegar e entregar um trabalho consolidado pra um empresario X, mesmo ele fazendo sua banda virar. Entendendo e participando do todo você vai poder opinar em que o dinheiro está sendo investido, no que se pode economizar pra investir em outra área e até em outra banda.

Acabou tendo um vício no Brasil que em certos lugares ainda se depende muito das bandas da década de 80 pra fazer um evento grande ou interessante. Se não colocar Capital Inicial, Biquíni Cavadão, parece que não se tem um retorno. Não tivemos uma renovação de bandas, talvez o Los Hermanos foi a última, NX0 e Cpm22 você vê que não estão mais com tanta força.

Apasseio - Puxando a sardinha pras bandas de Fortaleza... Pra participar do Moveis Convida?

- O FUJI – A gente geralmente convida bandas que conhecemos na estrada, a maioria são assim. O pessoal do Rádio de Outono, a gente se conheceu em Curitba e chamamos pra Brasília, o próprio Los Hermanos, tocamos no interior de Goiás e foi lá que chamamos... As vezes a gente consegue fazer uma seletiva, mas é muito difícil, muito material, daí se for escolher fica difícil. A gente queria mais espaço, por isso é feito duas vezes por ano. Mas nós sempre estamos recebendo material, indicações via internet, twitter...

Apasseio - E esse lance de ter lançado o cd ( c_omp_te) de forma virtual? Como se deu essa opção?

- O FUJI – A gente até conversou com várias gravadoras, mas não chegamos a nenhum ponto comum... até chegou , mas acabou tendo problemas... Com a Trama foi diferente, a gente acabou fazendo uma proposta de parceria que funcionou muito bem. Tanto eles apontam para a renovação, quanto a gente sabe a importância da internet.

Teve também a experiência do disco anterior, que quando colocamos todas as músicas para downloads gratuitos, isso ajudou mais gente a conhecer a banda e até, a venda de discos físicos aumentou. A gente sabia que a música na internet não era uma concorrente pro disco físico. Baseado na lógica do rádio e da TV, que você não paga enquanto espectador ou ouvinte, existem patrocinadores por trás de sua audiência. Na internet pensamos que seja da mesma forma, se tudo der certo até o fim do mês nos conseguimos bater o recorde do Ed Mota, que tem uns 26 mil downloads. A gente tá em 20 mil agora...

Apasseio - Por curiosidade, quantos exemplares vendeu o Idem?(primeiro cd)

- O FUJI – Uns 6 mil...

Apasseio - Só vendendo em show isso?

- O FUJI – É, a gente teve distribuição em loja, mas não conseguimos vender nem mil. A maior parte foi em show mesmo, o que varia né... Já o complete (segundo cd) tá com uma vendagem muito boa nas lojas. Teve uma semana que vendemos numa loja mais exemplares que a Ivete Sangalo (risos)...

Apasseio - Aqui em Fortaleza rola muito o lance do êxodo para Rio e Sampa. Vocês sentem isso em Brasília? Até pelo ranço da geração anos 80 que desceu dicumforça...

- O FUJI – Rio e São Paulo cara, não tem como, para ser uma artista, não necessariamente você precisa ter um reconhecimento nessas cidade. O reação em Cadeia antes de conquistar projeção nacional já eram uma realidade no Rio Grande do Sul e não eram no eixo. Mas é importante pra visibilidade nacional passar temporadas nessas cidades.

O Móveis opta por se fixar em Brasília pelo lado de fomentar, a gente quer que mais artistas apareçam, que mais artistas surjam, mais casas abram as portas. Pra fazer isso, tem que ta lá. Não tem como estar em São Paulo e apoiando o movimento em Brasília.

Preferimos manter a base em BSB pra conseguir fomentar, até porque temos uma visão que as gerações anteriores, todas as bandas saíram de Brasília, do legado deles ficou pouca coisa pra gente na cidade. É legal falar que eles são de lá, importante, mas o que as bandas fizeram por Brasília não foi tão intenso. Nos fazemos questão de ficar por lá, tanto que o cd foi lançado lá, fizemos questão de colocar isso pra Trama. A gente tenta encorajar outras bandas, depois do Moveis Convida, outras bandas optaram por fazer eventos similares. O Lafusa fez o Lafusicando, chegou a levar bandas muito interessantes.

Essa visão que é legal, todo mundo estar produzindo coisas pra mostrar o trabalho.

Apasseio – Cara, na boa... A sua relação de produtor é diferente, eu percebo que você não ta só nos bastidores, você faz parte da banda como se fosse um músico mesmo... Isso foi natural?

- O FUJI – Cara...(risos)... A idéia minha é não estar a frente, mas acaba de alguma forma que a participação no dia a dia é tão próxima, que eles mesmo propuseram essa historia... Eu não sei... Cara, é uma coisa legal, a gente gosta de trabalhar com pessoas que acreditam no que faz, todo mundo na equipe são pessoas que estão crescendo com a banda. A banda não é só banda é, tudo envolta. Os agradecimentos do disco novo deixam bem evidente isso, que a importância é de cada um, tanto o grupo, quanto as pessoas que ainda nem conhecemos, mas que de alguma forma nos dão retorno... Essa é a idéia que sempre buscamos trabalhar.

Apasseio - Pra finalizar, um recado pro mundo alternativo...

- O FUJI – O legal do Móveis é que quando um tá com a energia baixa o outro chega e levanta a moral, passa energia positiva... Eu acho que é isso, as pessoas tem que acreditar no trabalho, ver as prioridades e se puder investir em música, arrisque, trabalhe bastante. É curioso, alguém até brincou – Será que o O Fuji vai me deixar estagiar quando eu estiver cursando algo de produção? – Eu acho que tenho tanto a aprender quanto essa pessoa, nessa trajetória tem que acreditar tanto quanto fazer...




Papoca!

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Um comentário:

davi.gomes disse...

Muito bom matheuss, ótima entrevsita, moveis coloniais é bom demais, e inovador.. continua atualizando o blog, aquele abraço..